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O que é Sustentabilidade em Museus?
Otávio Balaguer – Coordenador de Preservação
Diante das mudanças climáticas, aceleradas pela atividade humana e pelo padrão de desenvolvimento econômico dos últimos séculos, o tema “sustentabilidade”, pelo seu viés ambiental, tem sido frequente no debate global nas últimas décadas. Entretanto, a sustentabilidade é uma abordagem ampla e diversificada, que pretende construir estratégias de manutenção do desenvolvimento da vida e sociedades humanas a longo prazo.
O debate internacional sobre a sustentabilidade emerge das discussões do “desenvolvimento sustentável”, isto é, formas de continuar o desenvolvimento humano, a melhoria das condições de vida, acesso a recursos essenciais para a dignidade no mundo globalizado, evitando o comprometimento da capacidade de futuras gerações de atenderem às suas necessidades. Assim como equalizar entre os países a distribuição dos recursos essenciais ao nosso modo de vida complexo.
O desenvolvimento sustentável, e a sustentabilidade como conceito, constrõem-se a partir dos anos 1970 com a realização de conferências amparadas pela Organização das Nações Unidas em suas instâncias técnicas, adentra os anos 80 e 90, consolidando-se primeiramente nos “objetivos do milênio” e, posteriormente, em 2015, nos 17 “Objetivos do Desenvolvimento Sustentável” (Figura 1) impulsionados pela ONU com a agenda 2030 de transformações estruturais nas relações sociais, econômicas, culturais e ambientai em âmbito global.

Nesse cenário, os museus não estiveram de fora, ao passo que são agentes de seu tempo, organizaram-se para debater o desenvolvimento de suas sociedades, sobretudo as do hoje chamado “sul global”, com protagonismo para a América Latina. Do contexto, a partir da Mesa Redonda de Santiago do Chile em 1972, e sua respectiva declaração, passam a emergir os conceitos e as práticas da Museologia Social como enfoque privilegiado na atuação cultural do campo museológico na região. A conhecida “mesa redonda” é seguida de outros encontros e conferências em 1972, 1984 e 1992.
Na abordagem da Museologia Social, as coleções, antes fechadas em si, passam a serem compreendidas como “patrimônio”, o enfoque dado ao edifício do museu se estende ao “território”, e o estratégias de atendimento ao público se mudam para ações com a “comunidade”. Esse giro conceitual, hoje considerado comum, por vezes até regra em práticas de ecomuseus, museus comunitários ou algumas instituições tradicionais, não era uma realidade objetiva antes dos eventos ora discutidos.
Na atualidade, em âmbito regional e nacional, o protagonismo das reflexões no campo da Museologia e da Gestão Museológica se deu pela atuação dos países ibero-americanos por meio do Ibermuseus - organização supranacional que reúne américa latina e península ibérica – que estruturou orientações para políticas culturais, em especial museais, por meio da construção coletiva e publicação do documento “Marco Conceitual Comum em Sustentabilidade (MCCS)”. O texto, referência incontornável, historiciza, fundamenta e define os conceitos e sua aplicabilidade em museus.
Já no espectro local, destacou-se a ação do Sistema Estadual de Museus de São Paulo (SISEM-SP), instância da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo (SCEIC), que abriu amplo debate público no estado e como resultado publicou a “Política SP de Sustentabilidade em Museus”. Esta, se tornou legado para as práticas museológicas das instituições públicas paulistas, como o Museu da Imigração.
Nesse sentido, em atendimento às demandas do presente e se valendo dos recursos conceituais apresentados anteriormente, o Museu da Imigração iniciou a discussão e construção da sua “Política de Sustentabilidade”, em parceria com o Museu do Café, por meio da criação do “Comitê Presença Sustentável”. As atividades da instância acontecem ao longo do ano de 2025 e buscam alcançar um marco interno e exequível, que oriente a todos os profissionais a atuar em perspectiva sustentável.
Mas, afinal, o que é a sustentabilidade em museus? É a atuação consciente e ativa, que busca adotar posturas sustentáveis no consumo de recursos ambientais, ser economicamente responsável, promotor da diversidade cultural e da interculturalidade, e socialmente impactante, ao passo que promove movimentos para superação das desigualdades. Os museus são e devem ser cada vez mais agentes do bem-estar das sociedades e porta-vozes de suas comunidades, caminhando em direção contrária às praticas que encerram o museu em si e vulnerabilizam a humanidade.
Referências Bibliográficas
Organização das Nações Unidas Brasil. ODS. https://brasil.un.org/pt-br
Ibermuseus. Marco Conceitual Comum em Sustentabilidade:
https://www.ibermuseos.org/pt/recursos/publicacoes/marco-conceitual-comum-em-sustentabilidade/
Sistema Estadual e Museus de São Paulo. Política SP de Sustentabilidade em Museus
https://www.sisemsp.org.br/conteudos/publicacoes-do-sisem-sp/