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Visita Técnica à Missão Paz: integração, acolhimento e memória
Por Nicole Alexsandra – Analista de Pesquisa Jr.
Nos dias 05 e 26 de agosto, as equipes de Pesquisa, Educativo, Preservação e Orientação de Público do Museu da Imigração do Estado de São Paulo realizaram visitas técnicas à Missão Paz, localizada no bairro da Liberdade, em São Paulo. É no Glicério, no centro da cidade, que a instituição concentra suas principais ações de acolhimento e apoio a pessoas migrantes e refugiadas.
Com mais de oito décadas de atuação, a Missão Paz se dedica, desde a década de 1930, a promover a integração social e política de imigrantes, solicitantes de refúgio, refugiados e apátridas. Sua missão, inspirada no carisma Scalabriniano [1], é acolher respeitando histórias, identidades e protagonismos individuais, sempre com uma perspectiva de dignidade e cidadania. [2]
No cotidiano do atendimento, a instituição oferece uma ampla rede de serviços, que abrange áreas como Capacitação e Cidadania, Casa do Migrante, Cursos de Português, Documentação, Assessoria Jurídica, Saúde e Serviço Social. [3] Também promove grandes eventos culturais, atividades de convivência e a prática de esportes, além de apresentar oportunidades de emprego aos acolhidos, favorecendo sua autonomia e inserção no país. Essa combinação de ações mostra como a Missão Paz entende o processo migratório em sua totalidade: não apenas o momento inicial de chegada, mas todo o percurso de adaptação, aprendizado e reconstrução de vínculos.
A Missão Paz ainda abriga o Centro de Estudos Migratórios (CEM) [4], fundado em 1968. O CEM mantém uma biblioteca especializada em migração e refúgio, um Centro de Memória e Documentação [5], que preserva tanto o acervo institucional quanto coleções recebidas de pastorais e pesquisadores da área, e coordena publicações e atividades acadêmicas. Entre elas, destaca-se a revista Travessia [6], de circulação quadrimestral desde 1988, referência nacional e internacional no campo dos estudos migratórios. O CEM também promove encontros e debates em parceria com o Laboratório de Geografia Urbana da USP (LABUR/USP), fortalecendo a interlocução entre a prática de acolhimento e a produção científica. [7] Além da produção editorial, outras formas de difusão também foram criadas pela Missão Paz, como a web rádio Migrantes [8], inaugurada em 2013, e um blog [9], que ampliam o alcance das iniciativas e oferecem novos espaços de diálogo, informação e sensibilização sobre as questões migratórias.


Durante a visita, foi possível conhecer de perto esse trabalho e compreender como a Missão Paz enxerga cada migrante como protagonista de sua própria trajetória. Essa perspectiva ficou evidente nos relatos sobre o funcionamento da Casa do Migrante, espaço de acolhimento temporário que garante moradia, alimentação e acompanhamento social, permitindo que as pessoas atendidas tenham o suporte necessário e condições de estabilidade para planejar os próximos passos de suas vidas no Brasil.

Outro ponto de destaque foi a ênfase na aprendizagem da língua portuguesa, não apenas como ferramenta de comunicação, mas como um instrumento de autonomia e inclusão. O contato com iniciativas de ensino de português, aliado às orientações jurídicas e à preparação profissional, revela a preocupação da Missão Paz em oferecer condições reais de integração.
Para as equipes do Museu da Imigração, a experiência foi enriquecedora. Além de observar práticas que dialogam diretamente com a missão do próprio museu, que esteve presente também nos quase cem anos de funcionamento da Hospedaria de Imigrantes do Brás [10], as visitas reforçaram a importância da colaboração entre instituições voltadas ao campo migratório. O compartilhamento de saberes, metodologias e experiências contribui não apenas para aprimorar o atendimento às populações migrantes, mas também para fortalecer a construção de uma memória coletiva sobre a imigração no Brasil.

Por fim, torna-se notável que a Missão Paz não é apenas um espaço de acolhimento, mas também um local de esperança, onde histórias de deslocamento se transformam em narrativas de resistência, pertencimento e novas possibilidades de vida. Para o Museu da Imigração, esse encontro representou uma oportunidade de estreitar vínculos e ampliar o olhar sobre as múltiplas dimensões do fenômeno migratório, reafirmando a centralidade da hospitalidade e da memória como pilares de uma sociedade mais justa e inclusiva.
Referências
[1] A Missão Paz se inicia em 1939, com o estabelecimento dos Missionários de São Carlos, Scalabrinianos, na região do Glicério. A princípio, possuindo o intuito de apoiar a comunidade migrante de italianos. O histórico da Missão Paz pode ser consultado em: < https://missaonspaz.org/historico-da-missao-paz/>. Acesso em 28 ago. 2025.
[2] Missão Paz. Missão, visão e valores. Disponível em: https://missaonspaz.org/missao-visao-e-valores/. Acesso em: 27 ago. 2025.
[3] Missão Paz. Atendimento. Disponível em: https://missaonspaz.org/atendimento/. Acesso em: 27 ago. 2025.
[4] Missão Paz. Centro de Estudos Migratórios. Disponível em: https://missaonspaz.org/estudos-migratorios/. Acesso em: 27 ago. 2025.
[5] Missão Paz. Centro de Documentação e Memória. Disponível em: https://missaonspaz.org/centro-de-documentacao-e-memoria/. Acesso em: 27 ago. 2025.
[6] Revista Travessia. Edições anteriores. Disponível em: https://revistatravessia.com.br/travessia/issue/archive. Acesso em: 27 ago. 2025.
[7] Missão Paz. Atividades. Disponível em: https://missaonspaz.org/atividades/. Acesso em: 26 ago. 2025.
[8] Rádio Migrantes. Programação online. Disponível em: https://radiomigrantes.net/. Acesso em: 27 ago. 2025.
[9] Missão Paz. Blog. Disponível em: https://missaonspaz.org/novo-blog/. Acesso em: 27 ago. 2025.
[10] Paiva, Odair da Cruz. Hospedaria de Imigrantes de São Paulo. Navegar, v. 2, n. 3, p. 59-76, jul./dez. 2016.